Brasília, sexta-feira, 15 de maio de 2026 - 9:26
Quando a política morre, a barbárie governa
Por: Marcos Verlaine*
Em tempos de descrédito institucional, ódio digital e radicalizações múltiplas, cresce a necessidade de reafirmar a política como instrumento indispensável para enfrentar desigualdades, conflitos e injustiças sociais, sem romper os limites da democracia.
Trata-se, pois, de a crise da política e o erro do antipoliticismo. Poucas ideias são tão perigosas para qualquer sociedade quanto a crença de que a política não serve para nada.
Ao longo da história, sempre que a política1 foi desacreditada, esvaziada ou destruída, o que emergiu no lugar dessa ferramenta não foi ordem, prosperidade ou moralidade superior. O vazio político quase sempre foi ocupado pela violência, pelo autoritarismo, pela guerra ou pela barbárie.
A política é, talvez, a atividade humana mais sofisticada e complexa já criada pela civilização. Não porque seja perfeita — está longe disso —, mas porque constitui o único espaço capaz de organizar interesses divergentes sem transformar diferenças em conflitos permanentes. Fora da política, resta a imposição da força.
Essa percepção não é nova. Desde Aristóteles2 como “animal político”, até Hannah Arendt3, que via a política como o espaço da ação coletiva e da liberdade, a tradição da ciência política compreende que a convivência social depende da construção permanente de pactos, mediações e consensos possíveis.
O problema contemporâneo é que parte significativa das sociedades passou a enxergar a política apenas como sinônimo de corrupção, privilégios ou disputas vazias de poder.
Esse fenômeno produziu perigosa expansão do antipoliticismo, que é terreno fértil para aventureiros autoritários, discursos de ódio e soluções simplistas para problemas complexos.
Democracia não elimina conflitos; civiliza-os
Sociedade sem conflitos simplesmente não existe. Países são compostos por classes sociais, interesses econômicos, visões culturais, identidades e projetos distintos de poder.
A política não elimina essas contradições; essa cria mecanismos para administrá-las dentro de regras civilizatórias.
É exatamente por isso que democracias são lentas, barulhentas e frequentemente tensas. Negociar é mais difícil do que impor. Construir maioria exige mais inteligência do que decretar obediência.
A política democrática pressupõe diálogo, concessão, disputa legítima e capacidade de convivência entre adversários.
Quando essa lógica se rompe, o que aparece é a lógica da eliminação do outro.
A história mundial mostra que regimes que desprezaram a política institucional em nome da “salvação nacional”, da “ordem” ou da “moralização” terminaram produzindo perseguições, censura, violência e concentração extrema de poder.
O autoritarismo nasce justamente quando setores da sociedade passam a acreditar que a mediação democrática é dispensável.
Por isso, defender a política não significa defender políticos específicos. Significa defender o princípio civilizatório segundo o qual nenhuma sociedade resolve seus impasses estruturais pela violência.
Único caminho para enfrentar desigualdades
A política também permanece como o espaço possível para enfrentar desigualdades, desequilíbrios sociais e injustiças históricas.
Nenhuma transformação social relevante ocorreu fora da arena política. Direitos trabalhistas, voto feminino, educação pública, Seguridade Social, liberdade sindical, combate ao racismo, políticas de saúde e proteção social foram conquistas produzidas por disputas políticas organizadas.
Mesmo os avanços econômicos dependem da política. Infraestrutura, industrialização, distribuição de renda, políticas fiscais, investimentos públicos, regulação financeira e desenvolvimento tecnológico são resultados de decisões políticas.
Isso se torna ainda mais evidente em países profundamente desiguais como o Brasil. A desigualdade brasileira não é apenas econômica; essa é territorial, racial, educacional e institucional. Sem política pública consistente, não há redução sustentável da pobreza nem ampliação real da cidadania.
A crença de que “o mercado resolve tudo sozinho” ignora que mercados também refletem relações de poder. Sem mediação política, os mais fortes tendem a impor seus interesses aos mais frágeis.
Desafio da credibilidade institucional
Nada disso significa ignorar a profunda crise de confiança que atravessam as democracias contemporâneas. Em muitos países, a população passou a perceber instituições políticas como distantes, burocráticas ou capturadas por interesses privados.
Essa erosão da credibilidade tem múltiplas causas: corrupção, desigualdade persistente, hiperpolarização, manipulação digital, concentração econômica e incapacidade de os governos responderem rapidamente às angústias sociais.
As redes digitais aprofundaram esse processo ao transformar a política em espetáculo permanente, dominado por slogans, desinformação e radicalização emocional. O debate público perdeu profundidade justamente quando os problemas nacionais ficaram mais complexos.
Nesse ambiente, cresce a tentação de soluções messiânicas: líderes que prometem governar sem mediações, instituições ou limites democráticos. Mas não existe sociedade complexa governável sem política organizada. O que existe, nesses casos, é concentração autoritária de poder.
O verdadeiro desafio do século 21 talvez não seja substituir a política, mas resgatar sua legitimidade social.
Ética, participação e reconstrução democrática
Para cumprir seu papel histórico, a política precisa recuperar o sentido coletivo. Isso exige ética pública, transparência, fortalecimento institucional e participação cidadã permanente.
Democracias não sobrevivem apenas de eleições. Dependem também de sindicatos, imprensa livre, universidades, movimentos sociais, partidos, associações civis e espaços públicos de debate. Quando esses instrumentos enfraquecem, a democracia perde capacidade de representar a sociedade real.
A política continuará sendo imperfeita porque sociedades humanas também são imperfeitas. Ainda assim, essa permanece como o instrumento mais avançado já construído para transformar conflito em negociação e divergência em convivência possível.
Sem política, não existe solução duradoura para os problemas estruturais de um país. Existe apenas força bruta, instabilidade e regressão civilizatória.
No fim, a grande escolha das sociedades nunca foi entre política e ausência de política. A verdadeira escolha sempre foi — e continua sendo — entre política ou barbárie.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
_________________
1 “conceito inteligente de política” vai além da simples disputa pelo poder ou da politicagem, com foco na capacidade de aprender, antecipar cenários e gerenciar relações de poder para resolver conflitos de forma criativa e produtiva, que gera valor coletivo (relação ganha-ganha).
2 Aristóteles (384 a.C. -322 a.C.) foi um dos mais importantes filósofos gregos e o principal representante da terceira fase da história da filosofia grega “a fase sistemática”. Escreveu série de obras que falavam sobre política, ética, moral e outros campos de conhecimento. Foi professor de Alexandre, o Grande (356 a.C. - 323 a.C.).
3 Hannah Arendt. Nascida Johanna Arendt; Linden, 14 de outubro de 1906, Nova Iorque, Estados Unidos, 4 de dezembro de 1975. Foi filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século 20. Notabilizou-se pelas reflexões sobre o totalitarismo e pela criação do conceito de “banalidade do mal”.
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